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Gonçalves

Estou muito feliz

Hoje é o meu dia de anos e estou muito feliz, porque já recebi os parabéns de duas clínicas dentárias, dois bancos, uma seguradora, uma livraria e da Telepizza. Há aqui uma certa desproporção de clínicas dentárias neste rol, tenho de reconhecer, que se explica pelo facto de eu ter filhos. E de ter dentes, também, por enquanto. Quero agradecer a todas estas instituições ou empresas que tiraram um bocadinho do seu dia para me enviarem um SMS automático. Estarão para sempre guardadas na minha lista de contactos. Desculpem não vos convidar para a minha festa, mas já convidei bastantes pessoas e uma seguradora muito minha amiga, por isso não dá para toda a gente. No entanto, se quiserem enviar-me uma pizza grátis ou uma higienização dentária como prenda, por favor não se inibam. Beijinhos e até para o ano, estou ansioso por ver o que me vão escrever no próximo Sms!

P.S: Confesso que a melhor mensagem nem foi um Sms, foi um email de um banco a dizer “Feliz aniversário! Lembre-se de que tempo é dinheiro.” Não estou a inventar, o email dizia mesmo isto. Foi muito especial para mim.

Nome de hotel

Se eu tivesse um hotel chamava-lhe 5 estrelas. Podia ser uma ganda porcaria mas as 5 estrelas estavam garantidas. E depois fazia anúncios a dizer “Já ficou em hotéis de porcaria? Então fique num Hotel 5 estrelas.” Quem lá ia pensava que era melhor, mas não, era a mesma porcaria que os outros.

Leite, o amigo tóxico dos Corn Flakes

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Durante muito tempo acreditei numa das maiores mentiras da humanidade, a de que os Corn Flakes funcionam com leite no mesmo recipiente. Não funcionam. E é um crime aquilo que se está a fazer ao povo Corn Flake um pouco por todo o mundo, ao derramar-lhes aquele líquido branco em cima, despojando-os de toda a dignidade. Aquele líquido ou outro qualquer, diga-se. Uma vez que um Corn Flake na plenitude do seu ser é um floco seco, que se quer rijo e espadaúdo, sem ponta de humidade no corpo cerealífero, para que possa resplandecer em todas as suas capacidades estaladiças. Só assim pode demonstrar o seu real valor. É como as batatas fritas, que têm de ser impecavelmente estaladiças, senão para que é que servem? Será que já houve alguém que dissesse “Prova estas batatas fritas! Vais adorar, são espectacularmente moles!”? As pessoas que disseram isso foram mortas e embalsamadas na hora, para figurarem num museu, numa montra de bizarrias, que é onde elas pertencem.

Alguém nos convenceu de que o leite e os Corn Flakes eram a combinação perfeita, amigos inseparáveis que se dariam lindamente ao pequeno-almoço, ao lanche, fora de horas e até, quiçá, num momento de loucura, à hora do almoço ou do jantar. E vai daí toca de despejar torrentes de líquido branco em cima de pobres flocos inocentes. Quando a verdade é que basta uma gota de leite, mesmo que frio, e é ver o Corn Flake imediatamente a fenecer, a amolecer a olhos vistos, a despedir-se do mundo à nossa frente. Oh crueldade floquicida! E o mais revoltante é que há quem goste de torturar os Corn Flakes, despejando-lhes leite quente, ou até a ferver, em cima, com o mesmo desvelo sádico com que na Idade Média se despejava azeite a crepitar na mona dos inimigos.

Eu não culpo o leite. Acredito sinceramente que o leite ama os Corn Flakes e que quer o melhor para eles. Mas está a fazer-lhes mal, com o seu abraço transbordante. O leite tem de perceber que os Corn Flakes dignos são aqueles que se comem à mãozada, como um aperitivo, separados dele. O leite até pode conviver com os Corn Flakes à refeição, desde que sentadinho na sua caneca ou noutra porcaria qualquer. Porque misturado na mesma malga que os Corn Flakes é um amigo tóxico, um assassino, que os reduz a meras tiras gordas e espapaçadas, pedaços de milho frouxo e impotente a boiar num mar branco indiferente e implacável. É isso que o leite quer para o Corn Flake? É isso a amizade? Decerto que não. E se os fabricantes de Corn Flakes fossem pessoas decentes, e quisessem realmente ajudar, punham um aviso nos pacotes a dizer “Atenção: Nunca deve misturar este produto com leite, nem com outro líquido, seu estúpido”.

Demasiado bugados

Há uns tempos, o meu filho de 11 anos estava com um ar um bocado sofrido e exclamou “Os meus testículos têm andado demasiado bugados para mim.” Não sei o que me perturbou mais, se foi ele estar aflito daquele sítio em particular ou se foi a escolha de palavras.

 

Pelos vistos, os testículos desbugaram naturalmente, porque o problema passou. Mas as palavras ficaram-me. Já o tinha ouvido dizer frases como “O rato ‘tá todo bugado!”, o que num contexto informático não estranhei. Mas esta aplicação do verbo “bugar” a outras realidades apanhou-me desprevenido. Especialmente porque ele disse aquilo com grande naturalidade, como se fizesse parte do jargão médico e um urologista pudesse dizer a um paciente: “Os seus testículos andam demasiado bugados para mim.” “E agora, doutor?” “Agora tem de ser operado. Senão ainda temos de deletá-los.”

 

A versatilidade de “bugar” é tal que até se pode usar em fados clássicos:

Quando eu tinha a idade dele, talvez usasse a palavra “marado” em vez de “bugado”. Não sei se diria “Os meus testículos têm andado demasiado marados para mim.” Mas, quem sabe, num dia de forte inspiração talvez acontecesse. No entanto, a forma mais habitual de usar a palavra “marado” era com a partícula composta “dos cornos”, formando a nobre expressão “marado dos cornos” ou “marada dos cornos”, que por sua vez se usava em importantes diálogos como: «Parece que a stôra de inglês teve um esgotamento.» «Como assim?» «’Tá marada dos cornos.» «Ah!». Mas isso já lá vai. Bons tempos. Actualmente, “marado” está morto e enterrado no círculo de pessoas à minha volta.

 

Já um termo que se tem aguentado muito bem é o “pá”. É verdade que não é a forma de tratamento da moda, o meu filho na sua fase juvenil é mais adepto do “mano” (“Como é que é, mano?”, ouço-o dizer, ou então “meu puto”), mas de vez em quando lá sai um “pá”. Especialmente porque o “pá” foi esperto e fundiu-se com o “eh” e com o “ó”, criando as famosas moléculas “eh pá” e “ó pá”, dois dos maiores sucessos da língua portuguesa. Pelo contrário, “bacano” ou “chavalo”, e respectivas derivações como “chavalinho” ou “chavaleco”, não tiveram a  mesma capacidade de se ligar a outras palavras e acabaram rejeitados pela selecção natural do calão. Já pouca gente usa “bacano” ou “chavalo”, a não ser pessoas como eu, que já estão com um pé para a cova. No outro dia saiu-me um “bacano” no meio duma conversa e senti que foi arriscado. Devia ter olhado muito bem para os dois lados antes de usar aquela palavra. Por pouco não levei com uma camionete de chacota em cima.

 

“Meu” também já teve melhores dias. É uma forma de tratamento da minha geração e arredores, juntamente com a versão inglesa “man”. E teve um pico de visibilidade na fase em que metade das comédias americanas eram traduzidas com títulos acabados em “meu”, como “Grande Moca, Meu!” ou “Estás Frito, Meu!”. Na altura até tive pena que esta fórmula dos títulos não se aplicasse a filmes mais clássicos, como “Estás na Lista Schindler, Meu!” ou “África, Minha!”. Só que entretanto a palavra passou de moda, meu! E agora, se dependesse de uma pessoa que eu cá sei, uma comédia pipoqueira de Hollywood chamar-se-ia qualquer coisa como “Estás Todo Bugado, Mano!”

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