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Gonçalves

A beleza da pornografia no Estado Novo

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De vez em quando vou à Biblioteca Nacional de Portugal, porque tem uma sala ampla e jeitosa para trabalhar, onde podemos partilhar o ar que respiramos com dezenas de seres humanos enquanto ouvimos aviões a passar. É muito agradável. Da última vez que lá fui deparei-me com uma mini-exposição – daquelas mini-exposições que só a Biblioteca Nacional sabe fazer, que conseguem condensar todo um tema sumarento no espaço de uma assoalhada, das pequenas – dedicada ao tema “Obras proibidas e censuradas no Estado Novo”.

 

E o que mais me chamou a atenção nesta exposição foi a linda caligrafia usada pelos Serviços de Censura do Estado Novo para catalogar as obras malditas, como se pode ver na foto acima. Acho que nunca tinha visto a palavra “Pornografia” escrita de forma tão bonita. E dificilmente voltarei a ver, agora que a letra manuscrita caiu em desuso. Aquele “a” final com uma cauda longa e ondulada na perfeição, muito caprichado, é uma delícia. Ou aquele “g” redondinho, também com uma pequena cauda elegante, tão fofo. Já para não falar no “P” maiúsculo inicial, ligeiramente inclinado, a começar num traço recto mais grosso, seguido de linhas curvas mais leves e um floreado a rematar. Que maravilha.

 

E depois temos os vários separadores do catálogo de Obras Proibidas. Todos com letra muito bem desenhadinha e devidamente arrumados por ordem alfabética, para que nenhum livro ou obra proibida ficasse fora do seu lugar. É quase enternecedor.

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Há separadores com temas malditos que começam por “A”, como “Anarquismo”, “Anti-clericalismo” ou “Associações secretas”, a seguir por “B”, como “Bolchevismo” (e que lindo “B”!), até outros como “Jornais e Revistas Humorísticas – Portugal”. Todos eles sem dúvida temas importantes a proibir.

 

 

 

 

 

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Depois, da letra “M” à “S” do catálogo encontramos grandes sucessos da censura como “Sexualidade” e “Pornografia”, até temas mais específicos como “Maçonaria” (cujo “M” é uma obra-prima – último separador em baixo), passando por temas mais elaborados como “Mulher – Sociologia e Moral” ou “Prostituição – Europa” (pelos vistos a Europa tinha direito a uma secção de prostituição só para si).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gosto de imaginar estes funcionários a escrever “Por-no-gra-fi-a” ou “Se-xu-a-li-da-de” com todo o afinco e concentração, com a sua canetinha vermelha. Afinal de contas, um profissional é um profissional. Não foi em vão que na escola primária treinaram páginas e páginas de “pês” maiúsculos impecavelmente floreados e de “ás” minúsculos de cauda comprida e ondulada, até atingirem a perfeição. Foi para um dia terem a honra de escrever os separadores dos temas mais abomináveis da nação. Se calhar até se imaginavam um dia a mostrar orgulhosos aos netinhos o seu trabalho, dizendo-lhes:

 –  Sabem quem é que escreveu estes separadores? Fui eu, o vosso avô.

–  Uau, avô, que letra tão bonita! Foste tu que escreveste aquele “Pornografia” ali tão bem desenhado?

–  Fui, sim senhor.

–  Que espectáculo!

 

Outro ponto alto da mini-exposição são algumas frases de belo efeito dos censores. Sendo que as melhores talvez sejam as do Capitão José Brandão de Melo a respeito do livro “Harmonia e Desarmonia Conjugais” de A. Cesar Anjo, que é descrito como «uma “porcaria” desmoralizadora e desmoralizante» que deve ser proibida «rigorosa e urgentissimamente, por se estar a vender na “Feira do Livro” com toda a força, numa sementeira maléfica de todas as horas.» Palavras fortes as do Capitão José Brandão de Melo. Aqui fica o parágrafo integral:

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Primeiro que tudo, quero agradecer ao Capitão o acrescento de vocabulário, porque nunca tinha visto o advérbio de modo “urgentissimamente” e só por isso já valeu a pena ler estas frases. Depois, gosto da ideia de um livro que é vendido com toda a força. Em vez de etiquetas a dizer “Best-seller”, os livros deviam dizer “Vendido com toda a força”, acho que ficava melhor. Alguém poder dizer que é um “autor de livros vendidos com toda a força” tem outra classe. E por fim nem consigo conceber o que seja “uma sementeira maléfica de todas as horas”, mas imagino a quantidade de Pais Nossos e Avé Marias que o Capitão teve de rezar para expurgar o conteúdo do livro de dentro de si. Que Deus o guarde com toda a força, que ele bem merece.

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Para quem estiver interessado em ler a polémica obra, aqui está ela. Eu não sei se terei paciência para lê-la, pelo menos urgentissimamente, mas a verdade é que a crítica literária do Capitão criou em mim uma sementeira maléfica de curiosidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se querem testemunhar com vossos próprios olhos estas preciosidades, e se têm um fraquinho por mini-exposições, vão espreitar esta até 3 de Setembro na Biblioteca Nacional de Portugal. Ah, e se gostam de aviões, aproveitem para ir à sala de leitura, que eles passam ali mesmo de frente. Até os vidros abanam. É espectacular.

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